sábado, 9 de janeiro de 2010



Uma aventura, uma loucura, vontade de aparecer, desejo de fazer algo diferente, viajar, novas experiências, expectativa de mostrar nosso trabalho... De ser alguém na vida, de sair do anonimato...
Não sabemos, enfim, “n” motivos nos levaram à idéia do Projeto “Dois Palhaços e seu Circo Itinerante”. Amadurecemos a idéia, buscamos recursos, encontramos dificuldades... Uns a favor, outros contra, mães super preocupadas, vêm à insegurança, caímos ao chão; a esperança é maior, estamos em pé outra vez, dificuldades, dificuldades, dificuldades, dificuldades, meu Deus, como é difícil criar, lutar, conseguir.

O tempo foi passando e a cada dia tínhamos a impressão de que nada havia sido feito, que o tempo estava contra nós, determinamos uma data, mais uma loucura, pois assim o tempo virou nosso inimigo de verdade, cada minuto era precioso, cada palavra era um incentivo e ao mesmo tempo um balde de água fria e o tempo... Esse bendito relógio que não para. Houve momentos que parecíamos duas “baratas tontas”, sem saber o que fazer e para onde ir.
As coisas foram acontecendo, o Projeto Dois Palhaços e seu Circo Itinerante, foi tomando forma, um frio na barriga e um calor no rosto nos impulsionavam, nos empurrava para frente e finalmente dia 19 de dezembro de 2009 chegou:
Pré-estréia na Praça Fernando Prestes no centro de Sorocaba, o coração pulsava forte, suávamos frio, a responsabilidade, o desejo de fazer bem feito, de agradar o público... Mãos trêmulas, dia de mostrarmos a cara e gritar para o mundo: SOMOS PALHAÇOS E NOSSA MAIOR MISSÃO É FAZER RIR. A nossa volta, o povo anônimo, cada um com seus problemas, sem entender o que dois jovens faziam espalhando bolinhas, claves, instrumentos musicais, trocando de roupa em plena praça publica e aos poucos ia surgindo dois palhaços que falavam alto jogando malabares e fazendo acrobacias... Esquecemos o texto, improvisamos, criamos novas situações, interagimos com os expectadores e no final a glória de todo artista: os aplausos, os sorrisos, os elogios, enfim, o projeto “Dois Palhaços e seu Circo Itinerante” virou realidade.



Estreamos em Sorocaba, a nossa casa, nosso quintal e com a graça de Deus tudo correu bem, mas era apenas o primeiro passo.
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Domingo, 20 de dezembro de 2009, nossas famílias com um “nó” na garganta, minha mãe, Soleide, ainda tinha esperança que eu (Vinícius) desistisse, pois, o medo da violência urbana, a insegurança em que vivemos e o fato do “passarinho sair debaixo de sua asa” a deixava muito triste e como ela mesma cantou (a música de Zezé de Camargo não lhe saia da cabeça): No dia que sai de casa minha mãe me disse, filho vem cá...
Mesmo assim caprichou no almoço e a tristeza mesclada com uma ponta de orgulho, me ajudou a arrumar a mochila, me aconselhou muito e ainda brincou: Se você morrer, eu te mato!

No final da tarde... Casa do Léo, onde a situação não era diferente, um churrasco com a família, conselhos, brincadeiras, peito apertado e a expectativa: eles vão mesmo!!!!

Meu pai me deu um livro, O Evangelho, e nos pediu para lermos um pequeno trecho, escolhido a esmo, acompanhados sempre do nosso Anjo da Guarda... Fé, palavra de apenas duas letras, porém com uma importância incrível:

“Fé (do grego: pistia e do latim: Fides= fidelidade) é a firme convicção de que algo seja verdade, sem nenhuma prova de que este algo seja verdade, pela absoluta confiança que depositamos neste algo ou alguém.”

Como é importante ter fé, nos deixa mais leve, mais confiante e mais perto de Deus.
Quase a noite, mesmo sob protestos dos nossos pais, pois eles insistiam para deixarmos o início da viagem para o dia seguinte bem cedo, mochila nas costas e o sonho do sucesso, demos inicio à jornada do Circo Itinerante.
Saimos da casa do Léo, próximo à Av. São Paulo e seguimos rumo a Rodovia Senador José Ermirio de Moraes, a famosa Castelinho, ligação entre Sorocaba e a Rodovia Castelo Branco, aproximadamente 12 Km separam Sorocaba da Rodovia.

Os primeiros passos, firmes, fortes, decididos, alguns quilômetros depois a molhila que pesava mais ou menos 45 Kg, já representava uma tonelada, e vamos em frente.

- Vaaamos Vinícius, phuf, phuf,phuf.
- Tô indo, ai meu Deus, tô indo.
Mais alguns quilômetros.
- Caminha Leo.
- Tô caminhando, tô caminhando... Engraçado, de carro a Castelinho parece tão pequena e a bendita carona que não aparece, phuf, phuf, phuf.

Após alguns quilômetros, percebemos que conseguir carona era um pouco mais difícil do que pensávamos e, por fim, nos deparamos com uma carona inusitada, Minha irmã (Do Leo) Liliane e meu cunhado Rogério que, por coincidência de verdade, passavam pela Castelinho indo em direção a sua casa, assim, nossa "quase carona" nos levou até um posto ali por perto, onde seria mais fácil conseguir alguém que nos levasse para longe; e assim aconteceu!


Em poucos minutos um caminhoneiro chamado Carlos, que ia em direção a Porto Feliz, nos levou até boa parte do caminho (ficamos na beira da estrada para que assim, pudéssemos acampar mais facilmente), enquanto isso, conversamos sobre várias coisas, como o porquê de ele dar carona? Seria pelo fato de gostar de conversar e, por ser a noite, ter alguém mais para lhe fazer companhia? Depois descemos na entrada de Porto Feliz e até termos montado acampamento, percebemos que não tínhamos nem água nem nada para o café da manhã, nesse momento refletimos:

- Pai e mãe é uma cáca, meu pai (Vinícius) sempre insistiu para que eu e meus irmãos fossemos escoteiros e nenhum de nós se interessou, se eu tivesse ouvido o conselho de meu pai, hoje seria mais fácil, em um grupo de escoteiros eu teria aprendido muitas técnicas de acampamento.
Sendo assim, apenas assistimos as filmagens do dia e depois de muita risada tentamos dormir.

-Leo, você já está dormindo?
-Não.
-Eu estava pensando, nossos primeiros passos estão de acordo com o projeto, pois, da sua casa até a Castelinho tem mais ou menos 4 km, nós andamos aproximadamente 12 km, do posto de gasolina até aqui são mais uns 30 km, somando assim 46 km... Estamos indo para onde o vento nos levar (de acordo com o projeto), porque estamos em Porto Feliz que é distante 28 km de minha casa, para chegar até aqui, se tivéssemos seguido pela Av. Ipanema, acabaria sendo bem mais perto, concorda?
-Claro, mas a idéia era essa mesma, vamos para onde nos oferecerem carona e aqui estamos.
-Pois é, mas vamos dormir que precisamos descansar para amanhã estarmos bem dispostos e cheios de coragem para seguirmos em frente.
-
-
- Vi, você já dormiu? Eu também estava pensando... sua casa é um sobrado...
-Sobrado não, pense que sobrado é quando sobra espaço... Quando o espaço é pouco, então é um cômodo na parte de cima.
-Que seja, mas seu quarto é em cima,  você falou em coragem, eu me lembrei daquele dia, quando apareceu um rato em seu quarto e você, cheio de coragem, conseguiu pegar o celular e acordar seus pais, que dormem no andar de baixo para virem pegar o rato, você foi muuuuito cooorajoso... E se aparecer um rato aqui na barraca, seus pais estão há aproximadamente 28 km como você mesmo disse...
-Dorme Leo, dorme.
-Mas e se aparecer...
-Leo, por falar em coragem, ou você dorme ou eu vou começar a contar histórias de assombração.
-Boa noite Vinícius.
-Boa noite Leo.

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Partimos assim que amanheceu e, novamente, em poucos minutos, conseguimos nossa segunda carona "de verdade", um rapaz de Porto Feliz, o Márcio, com o qual nos identificamos muito (já havia saído de mochileiro e tinha um gosto musical muito parecido com o nosso).
Chegando ao centro de cidade, percebemos que a mesma cidade que nos acolheu tão rapidamente era uma "Cidade em Preto e Branco" isso é, uma cidade em que não acolhe muito bem a cultura; esse foi o nome escolhido, pois acreditamos que a arte torna as coisas mais coloridas. O público de lá, nem se quer parou para assistir o espetáculo (o detalhe é que a praça estava cheia). Foi um grande baque pra uma primeira apresentação, ver tanta gente passar e nem olhar pra gente chegou a me dar a impressão de ser invisível.

Surgiu a dúvida, será que a cidade é preto e branco ou as pessoas é que são?

Ou será que a correria do dia-a-dia, a ganância, o consumismo e outros impropérios, anestesiaram a sensibilidade dos seres humanos? Não sabemos, mas nos questionamos e a dúvida permanece.













                          Saímos da cidade quase que imediatamente, foram cerda de 4 horas de caminhada sem conseguir carona (o silêncio e o mau humor reinava entre os dois palhaços); então, como que surgido de uma prece silenciosa, encontramos um rio, onde algumas crianças nadavam, ou melhor, um oásis para saciar calor e cede (a água potável que tínhamos, já havia acabado novamente, pois não há água que aguente após 4 horas de caminhada carregando uma mochila de 45 Quilos sob um sol de 33°C).

Reabastecidos de água e com os estresses apaziguados, a caminhada veio com novo ânimo e, talvez por coincidência, minutos depois nos veio mais uma carona de um rapaz chamado Beto e essa ia para Itu.

Chegando lá, mais uma decepção, não tivemos público fixo por mais de 5 minutos, era como se TODOS estivessem com muita pressa, era até triste de ver as crianças parando pra assistir e os pais as puxando pelos braços.
Mais tarde, ali por perto, enquanto eu e o Vinícius conversávamos sobre o futuro do projeto, um senhor que acompanhava a conversa, ofereceu-se para nos levar até perto de Indaiatuba (foi a nossa primeira carona oferecida e não pedida, com isso, a impressão de que tudo melhoraria) o Alemão (era assim que se intitulava) até mesmo nos pagou uma cerveja e uma ficha de bilhar (artista também é filho de Deus...).
Indaiatuba foi nosso maior trauma até então, chegando num posto onde paravam muitos caminhoneiros, pensamos que ali seria o melhor lugar para pedir carona, passamos algumas horas pedindo carona tanto no posto como na beira da estrada, até que, tarde da noite, desistimos e resolvemos montar acampamento ali mesmo, na beira da estrada, ao lado do posto.
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Acordamos com o sol e voltamos ao posto para pedir carona, novamente foram horas esperando por carona e o dia estava quente como nunca e quando finalmente conseguimos carona, com o Mateus, um frentista que nos observava fazia tempo, compadecido com a nossa causa, deu-nos 7 reais para que fossemos diretamente para Campinas (pois ele dizia que em Indaiatuba não haveria público), pensando bem, acreditamos que essa decisão foi um erro, pois de acordo com o nosso projeto, nós deveríamos nos apresentar, só assim para sabermos se Indaiatuba é uma cidade preto e branco ou colorida. Pedimos desculpas à cidade, pois se a cidade e o povo nos acolhessem bem, seriam merecedores de elogios e nós os privamos dessa oportunidade, a de ser elogiado por receber bem a arte, perdoe-nos.

Seguimos assim para Campinas, chegando lá, depois de vários conselhos, percebemos que o nosso negócio seria seguir para cidades do litoral ou do "interiorzão" mesmo, mas devido as datas festivas que se aproximavam, aconselharam-nos que fossemos até alguma praia mesmo.













                     Fizemos malabares no semáforo até conseguir completar o dinheiro para comprar uma passagem pra Santos (o destino mais barato) e no mesmo dia, em cerca de 3 horas partimos pra lá. Confesso que o ânimo melhorou muito ao saber do nosso novo destino, mas o motivo principal não era o fato de ter o mar por perto, e sim, por saber que o público seria bem maior e de mais fácil acesso.


Chegando a Santos nossa sorte começou a mudar, com as poucas moedas que nos restavam compramos pão, presunto e mussarela para fazer um lanche, nesse meio tempo arranjamos amizade com uma adolescente muito simpática chamada Julia (infelizmente não podemos colocar a foto dela, pois ela é menor de idade), a primeira pessoa que se aproximou da gente sem nenhuma forma de medo. Ela nos indicou uma praça onde acreditava ser o melhor lugar para uma apresentação, apresentamos enquanto ela filmava e a apresentação foi indiscutivelmente boa.
Logo após a apresentação, um jovem com claves nas costas disse que mais tarde haveria um encontro de malabaristas ali por perto, e veja só como é o destino, justo no momento em que a Julia teve de ir para casa, o Vinícius e eu fomos procurar o local onde os malabaristas se encontrariam, eles não estavam lá, mas exatamente ali na frente, um pessoal parou pra perguntar se éramos malabaristas e disseram que estavam precisando de "gente de circo" pra animar uma balada que eles estavam produzindo. Conversa vai, conversa vem, contamos sobre o projeto e que também seria impossível fazer a balada, pois não passaríamos novamente por Santos; não arrumamos um contato profissional, mas arrumamos amigos, passamos a noite inteira rindo e conversando sobre o projeto com os quatro (Carol, Anderson, Thiago e Barbara).



E nossa Viajem continua por aí a fora... Claro que... apesar de não termos um chuveiro... um banho de mar é SEMPRE bem vindo. E até a próxima daqui a dois dias!

Beijos

Vinícius Magueta e Leandro Paiffer

3 comentários:

Anônimo disse...

Agora sim! Fotos fazem toda a diferença! rsrsrs

Os textos adicionais estão ótimos!

Agora só falta o povo que lê (que é muita gente, eu sei!) comentar né?!

Abraços...

Sol disse...

Ficou sim, muito legal, e o povo que lê, comentará....Fé em Deus!!!!

Unknown disse...

Uma certa vez um louco faltando seis meses para se formar, abandonou o curso de medicina que fazia e resolveu viajar pela América Latina para poder conhecer melhor o lugar onde morava. Convidou um amigo e lá foram eles. Loucura? Idiotice de sair por aí nessa louca aventura? Esses loucos eram Alberto Granado e Ernesto CHE GUEVARA e o mundo depois da loucura desses dois nunca mais foi o mesmo!!! Parabéns pela atitude de vocês dois, pois feliz é aquele que segue um sonho em vez de morrer parado com medo da realidade. Continuem e se não conseguirem mudar o mundo, pelo menos irão mudar a visão de vocês de ver o mundo e isso será a melhor coisa que vocês puderam proporcionar ao futuro de vocês. Abraços.